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:: LAZER A LASER 1/10/2009 04:53:49 PM (o) Comentários: ::
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::.. Segunda-feira, Dezembro 15, 2008 ..::

DISQUE BORNAY


Clóvis Bornay foi um dos nomes mais famosos do carnaval. Museólogo e carnavalesco, Clóvis era considerado um verdadeiro gênio na arte de criar fantasias, a ponto de ser declarado hors-concours nos desfiles de que participava, já que quase sempre vencia o concurso quando subia na passarela com seus trajes exuberantes. Ele morreu em 2005, aos 89 anos, e causou comoção. Seu rosto e sua voz eram conhecidos por milhares de pessoas, mas poucos o conheceram melhor que Ed, em quem Clóvis nunca pôs os olhos. Foi apenas por telefone que os dois conversaram durante 16 anos. Os bate-papos, que rolavam a qualquer hora do dia, mesmo de madrugada, começavam com Clóvis sempre sendo amável, mas terminavam aos palavrões, com Ed sendo xingado. Por quê? Ah, sim. Faltou dizer que essas ligações eram trotes. Sim, Ed passou 16 anos mandando trotes para Clóvis Bornay.
Ed é um redator publicitário que atende também pelo nome de Edberto Dutra. É pelo apelido que ele é mais conhecido e comentado. É, comentado mesmo. Existe até uma comunidade no Orkut com o nome “Eu conheço o Ed”, na qual as pessoas debatem sobre as maluquices do sujeito. Ed diz que às vezes há um exagero sobre seus feitos. “É verdade que você rola pelo chão dos bancos, para acompanhar a fila até o caixa?”, pergunta a reportagem da M.... “Que nada!”, diz o publicitário, dando uma efêmera sensação de que ele é normal. “As pessoas inventam muito”, continua, reforçando a impressão de que ninguém realmente seria capaz de uma coisa dessas. “O que acontece é que uma vez eu achei a fila do banco muito comprida e sentei no chão. Quando a fila andou, eu estava cansado e resolvi rolar no chão para ir adiante. Mas não é algo que faço sempre”, explica Ed, provando que os boatos são verdadeiros, embora ele não se toque disso.

Para falar sobre seu longo histórico de trotes passados a Clóvis Bornay, Ed recebeu a reportagem da M... na portaria de seu prédio. A idéia era partir para um boteco, mas ele sugeriu que a conversa fosse mesmo em seu apartamento. Antes, avisou sobre o coelho com quem mora. “Ah, já te contaram que eu moro com um coelho! Devem ter falado que a casa fica meio suja, né?”, sonda, abrindo o apartamento, que tem alguns presentinhos espalhados pelo coelho no chão da sala. E não estamos falando de ovos de Páscoa. Ed pede que a reportagem espere na porta para que ele possa limpar o chão. Ele pega uma vassoura e varre apenas uma pequena área da sala, em frente ao sofá, que é onde fica subentendido que o repórter deve se sentar e ouvir como começaram os trotes para Clóvis Bornay.

“Foi em 1980, quando eu tinha uns 16 anos. Eu e uns amigos vimos uma reportagem no jornal O Dia sobre um assassinato em um edifício na Rua Prado Júnior, em Copacabana. Lá tinha uma declaração do Clóvis Bornay, que era o síndico do prédio. Aí pegamos um catálogo telefônico, procuramos pelo endereço e achamos o telefone dele. Naquele dia ligamos pra ele nos fazendo passar pelo assassino, dizendo para ele tomar cuidado, pois estava dando com a língua nos dentes”, relembra Ed, com um brilho nostálgico no olhar. “Aquela foi a primeira fase dos trotes, até 1987. Entre 1984 e 1985, eu ligava semanalmente com meus amigos. Íamos para um orelhão e fi- cávamos nos revezando nas ligações. Telefonávamos às quartas, à noite. A gente sempre ligava antes de ir para a boate e brincávamos com a voz dele e a língua presa”, conta.

Ed recorda que Clóvis começava o papo sempre atencioso, carinhoso. “A gente ligava dizendo que era fã, que achávamos que ele era um vitorioso. Elogiávamos o cabelo dele etc. Já liguei dizendo que eu tinha língua presa e precisava do conselho dele. Também liguei dizendo que era um vestibulando, pensava em fazer museologia e queria a opinião do museólogo mais fodão do país”, narra o algoz, que também costumava se passar por jornalista para introduzir o trote. “Uma vez liguei dizendo que era do Peru Molhado, conhecido jornal de Búzios. Diante do Peru Molhado ele não podia ficar de boca fechada”, brinca Ed.
Quando uma piadinha dessas no fim da conversa revelava que se tratava de um trote, Clóvis passava a vociferar e até partia para ofensas. Soltava coisas do naipe de “Vai roçar a bunda nas ostras do Leme!”, uma sugestão que Ed jamais esquecerá (e provavelmente nunca experimentará, diante da bizarrice da situação). A essa altura, o leitor deve estar se perguntando “Mas Clóvis Bornay não percebia logo de cara que era trote, diante da assiduidade das ligações?”. Ed responde: “Tenho certeza que ele já sabia que era a gente. Mas sempre dava trela. Era um peroba clássico. Nós ligávamos direto, acho que ele gostava, pois era um cara solitário. Mas ele era uma figura meiga, bacana”, lembra, deixando escapar uma palavra de carinho.

Isso porque a intenção de Ed nunca foi ficar amiguinho de Clóvis. O publicitário é conhecido pelas agitações que cria. Mas sempre fora do trabalho, como narram os colegas que já trabalharam com ele em agências. “Não queria confusão, não me convidasse”, é uma das frases de Ed lembradas por um dos colegas convidados a dar depoimentos sobre o sujeito. Vamos evitar que se identifiquem, pois talvez Ed não goste de ver algo aqui revelado. Um desses amigos faz questão de contar um dia específico: “Eu estava ao lado dele, esperando para atravessar a rua Voluntários da Pátria, em Botafogo. Havia uma pequena multidão de pedestres de cada lado. Assim que abriu o sinal, ele saiu correndo e berrando: ‘atacaaaaar!’. Depois, pelo caminho, foi recolhendo todos os panfletos distribuídos na rua. Aí parou numa esquina e começou a distribuir os papéis. Mas quando um incauto se interessava em pegar, ele puxava o panfleto de volta. E no elevador do shopping lotado, em alto e bom som, começou a falar, do nada: ‘eu poderia estar roubando, eu poderia estar roubando, mas não. Estou aqui fazendo porra nenhuma!’”, relembra.

Ed não é de perder a piada, como conta outro colega. “Uma mulher apresentou a ele uma amiga. Ela falou ‘Lembra dela, Ed? Do Hipódromo?’, disse, referindo-se ao popular bar do Baixo Gávea. Ele respondeu apenas ‘De que páreo?’”. Outro caso que mostra a rapidez e a cara de pau de Ed é narrado por mais um amigo. “Ele e um colega estavam andando na rua, voltando do almoço na Praia de Botafogo. Parou um carro ao lado deles e o motorista perguntou: ‘Amigão, Santos Dumont?’, querendo saber onde era o aeroporto. Resposta do Ed, contrito: ‘Morreu!’”. Outra memorável ocasião, lembrada por um colega: “Assim que começaram aquelas imagens nas embalagens de cigarro, advertindo sobre os problemas do fumo, vi o Ed com o maço que tinha estampada a foto de um bebê prematuro. Perguntei se olhar aquela imagem o assustava. Ele respondeu: ‘Com essa idade eu não fumava’”.
Diante de descrições como essa, dá para entender a bronca com que Ed ficou de alguns colegas quando veio a sua segunda fase de trotes. A primeira acabou quando seus amigos foram se mudando para outros lugares e deixaram de ser seus vizinhos. A nova etapa começou em 1993, quando Ed já era adulto, um profissional respeitado. Um dia, na agência em que trabalhava, ele contou para os colegas sobre esse antigo hobby. “Eles não acreditaram e na mesma hora falei o telefone do Clóvis. Eu já estava há dez anos sem ligar, mas lembrava do número, que não esqueço até hoje: 275-9962. Aí liguei e todos gostaram. Acabou que o pessoal lá adotou a prática, que se espalhou para outras agências depois”, conta Ed.

Mas a falta de maldade de alguns dos novos praticantes irritou Ed. “O pessoal da agência onde eu trabalhava acabou ficando amiguinho. As meninas ligavam pedindo conselho sobre fantasia de carnaval. Aí perdeu a razão. Minha intenção sempre foi a de fingir amizade para depois descabelar o velho”, critica Ed. Seus colegas foram além nessa história de ficar bem com Clóvis Bornay. “Quando ele foi internado no hospital, o pessoal queria ir lá visitá-lo. Eu não quis. Depois de quase 20 anos zoando o cara, eu me sentiria mal. Talvez ele até tivesse fairplay. Às vezes me falavam que essa minha história com o Clóvis era digna de ir parar no programa do Jô Soares. Mas eu acho que se eu fosse lá contar os trotes, iam acabar armando de botar o Clóvis saindo dos bastidores para confraternizar comigo. Não queria isso”, diz. Mas Ed uma vez deu uma leve confraternizada com o museólogo. “Uma vez liguei pra ele e me identifiquei, dizendo que eu sempre ligava com uns amigos. Relembrei uns trotes. Ele confirmou que sabia que era a gente que sempre telefonava”, revela.

Por falar em relembrar trotes, Ed diz que é impossível escolher sua melhor façanha. “Cara, trote é como filho. Impossível dizer qual é o favorito”. Mas pela empolgação com que narrou alguns deles, é possível chegar a dois feitos de que se orgulha. Um deles foi passado depois que Ed viu no programa Sem censura, da antiga TVE, que Clóvis havia ganho seu primeiro prêmio em um concurso no clube Fluminense. “Ele contou que depois de vencer, não queriam que ficasse com o troféu, porque ele não poderia ter participado do concurso, já que não era sócio do clube. Aí liguei para ele dizendo que era o Seu Macedo, do almoxarifado do Fluminense. Falei que tinham sentido falta do troféu no clube e que eu ia lá na casa dele buscar. O Clóvis ficou nervosíssimo e disse que não ia devolver!”, lembra.
Outro que conta com um sorriso maior nos lábios foi o que passou quando viajou para os Estados Unidos. O requinte de crueldade: foi um trote a cobrar. “Eu estava nos Estados Unidos e soube que o Clóvis tinha se casado. Era madrugada. Liguei a cobrar e ele atendeu. Aí perguntei se ele tinha recebido a baixela de prata que mandei de presente de casamento”, conta Ed, explicando por que gostava tanto da prática e por que só passava trotes, única e exclusivamente, para Clóvis. “O legal do trote era ver um cara carinhoso como ele chegando ao fim do telefonema xingando a gente. Era uma coisa inesperada. O bacana para quem ouvia era ver ele partindo da meiguice para a revolta”, teoriza.

Ao fim da entrevista, dá para perceber que Ed tem saudades de Clóvis. “Quando ele morreu, recebi uns dez telefonemas. Quando minha avó morreu, se me ligaram duas vezes foi muito. Olha, nunca tive uma namorada para quem liguei tanto quanto eu ligava para o Clóvis”, contabiliza Ed, que já pensou em um substituto em seu coração. “Sabe quem seria legal para passar trotes? O David Brazil. A voz dele e a gagueira devem render bem”. Quando a reportagem já está de saída, a caminho do elevador, surge a pergunta. “Ed, você já pensou que agora que está em outro mundo, o Clóvis Bornay pode aparecer para lhe passar também uns trotes?”. Ed fica parado por uns segundos, com o olhar sério. “Poxa, não foi bom você falar isso. Nunca havia pensado nessa possibilidade. Agora fiquei preocupado”, responde antes de voltar para seu apartamento. Mas ele tem a companhia do coelho. O bichinho de estimação também deve servir para afugentar espíritos brincalhões. É só não varrer o chão.



:: LAZER A LASER 12/15/2008 07:55:44 PM (o) Comentários: ::
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::.. Quarta-feira, Novembro 26, 2008 ..::

O VELHO MEFISTOFÉLICO


Autor: Rogério Silvério de Farias
(www.rogerio.siteonline.com.br)

Velho

Ali, bem no topo daquele morro, aquele casarão antigo e sinistro mais parecia um monumento tétrico em louvor a tudo de ruim e malévolo engendrado pela mente humana no decorrer das eras sem fim. Era um casarão de madeira negra, alto, com poucas janelas. O estilo da construção lembrava o gótico. Lembrava; arquitetura igual àquela nunca se tinha visto antes, tal era sua estranheza. Os contornos da casa, a sua silhueta escura no topo da colina, realçava-lhe o aspecto sinistro, amedrontador, mal-assombrado.

Quando o frio inclemente fustigava como um chicote invisível os dias e as noites, uma bruma esbranquiçada e fantasmagórica, vinda do mar, circundava a casa toda, envolvendo-a como um manto, rodopiando numa lenta e aziaga coreografia, parecendo querer assombrar ainda mais a sombria vivenda e o próprio local, trazendo horrendos eflúvios e vozes quase imperceptíveis que mais pareciam o grito de todos os demônios do medo incrustados na mente dos mortais condenados à sina da carne e do sangue, à dor no destino da cruz da vida humana no mundo da angústia e da morte.

Então tudo se enchia de sombras e medo, tudo parecia ficar mais carregado, mais sombrio, mais apavorante.

Naquele casarão medonho vivia o ancião. Era um velho solitário, esquisito, arredio. Meio misantropo e meio anacoreta. Era na verdade, esse velho, um tipo terrivelmente esfíngico, enigmático. Misterioso como um habitante não-humano do plano astral.

Quem passasse ali por perto, poderia ver por uma das poucas janelas envidraçadas sua silhueta negra passando, lá dentro, em meio à penumbra, como um fantasma demente na quarta dimensão.

Que mistério guardava aquela criatura macróbia pouca gente sabia. Ninguém sabia ao certo de onde viera, qual seu ofício, a que família pertencia, do que vivia. Para muitos, era um mistério irritante, mas ao mesmo tempo assustador. O velho parecia ter vindo do passado longínquo, de um tempo remoto, tamanha era sua longevidade. Seus olhos estranhos, apesar de quase sem brilho algum, denotavam uma sabedoria oculta há muito esquecida pela atual civilização humana.

O povo do lugar – uma pequena cidade chamada Coirela Grande – era do tipo bem supersticioso. Assim, como quase sempre a superstição é a mãe de todas as lendas, surgiram ao longo dos anos inúmeras histórias atemorizantes acerca do tal velhote sinistro. E logo o ancião tornara-se um verdadeiro patrimônio vivo do medo e do horror, uma verdadeira lenda viva da minúscula Coirela Grande.

Havia quem dissesse que o tal velho era apenas um ancião caduco, um vetusto excêntrico cuja mente envergara com o peso dos anos e os horrores da vida e do mundo, e que, agora, não sabia de mais nada, perdendo-se por completo nos labirintos inextrincáveis da insanidade e da solidão senil. Mas a grande maioria – particularmente a arraia-miúda de Coirela Grande - persistia em afirmar que o velhote sabia de coisas que não deveriam ser descobertas, nem levadas ao público profano. Ele sabia de coisas estranhas, com certeza coisas deste e do outro mundo! Na verdade, afirmava-se que ele era uma espécie de hierofante, ou seja, um cultor das ciências ocultas. Que ele tinha realmente o dom de confabular com os espíritos dos mortos e dos demônios inumanos que habitam os mundos invisíveis que certamente coexistem com o nosso num intercâmbio quase que totalmente secreto.

Para os menos incrédulos restava apenas o consolo do velho brocardo de que por trás de uma lenda há sempre uma raiz de verdade.

Pouca gente gostava de passar por perto da casa do velho misterioso, e, para os mais místicos, toda a sua casa parecia envolta por uma aura mefítica de horror e morte tenebrosa.

Nas noites mais escuras, quando as sombras sinistras sedimentam todos os medos desvairados arraigados como cânceres negros na alma humana, ouvia-se um som estranho e assustador como o lamento de um fantasma torturado no fogo do inferno: o estranho som de um teremim! Sim, um magnífico e estranho teremim! Todos sabiam que era o velho excêntrico quem o tocava. Era uma das poucas coisas que o povo sabia a seu respeito: ele era um amante das artes; sua música, bem como as estranhas e grotescas estátuas na frente do casarão atestavam isso.

Neste velho mundo de desgraçados e miseráveis, existe gente de toda laia, gente capaz de tudo para ver o seu maldito e mesquinho ego se dar bem na vida, gente que é capaz até mesmo de desafiar os arcanos do sobrenatural, execrá-lo, zombar dele como se fosse uma pilhéria ridícula. Gente que não sabe que certas coisas precisam ser deixadas envoltas pelo véu do mistério, para que não tornem este mundo ainda mais ruim e para que não enlouqueçam ainda mais o pífio animal humano.

João Gadanho e Chico Saca-Boi eram exemplos desse tipo de pessoa. Além de ateus, eram à-toas. Típicos párias, safardanas gerados no ventre da miséria. A desesperança e o ódio eram as vitaminas perfeitas de seus cérebros degenerados. E, ainda por cima, os dois faziam da rapinagem o seu ganha-pão. Larápios, assaltantes. Safados no grau máximo, no grau absoluto, por assim dizer. Malandros, dois escrunchantes de primeira. Enfim, dois rebotalhos da sociedade. Marginais cujo lema precípuo era: tudo por dinheiro custasse o que custasse, doesse a quem doesse.

Numa certa noite em que a lua cheia cintilava esplendidamente no céu como uma deusa nua de mortiço fulgor, espalhando sua voluptuosa luz perolada sobre o mundo escuro dos homens, eles dois resolveram assaltar o velho esquisito. Morando numa casa grande como aquela, o diabo velho provavelmente teria muita grana, talvez tesouros ocultos de incalculável valor!... Assim raciocinavam os dois ladrões, estúpidos como eram...

Seria moleza, os dois ratoneiros acreditavam. O velhote não tinha nem cães, o lugar era meio afastado do centro da cidade, tudo uma maravilha perfeita para ladrões como João Gadanho e Chico Saca-Boi.

Enquanto caminhavam furtivamente pelas sombras da noite, os dois sem-vergonhas confabulavam como dois demônios noturnos, arquitetando o plano diabólico:

— Acho que vai ser moleza, Gadanho. Mais moleza do que tirar pirulito de criança. O tal velho esquisitão vive sozinho como um bicho-do-mato. É coisa rara o traste sair de casa. É meio louco, dizem. Ouvi dizer que o velho tem parte com o Demo, que ele é ruim como o Zarapelho.

— É mesmo, Gadanho? — fez o escanifrado , que tinha os dentes da frente bem proeminentes, para fora, como se fosse um limpa-trilhos, o que, aliás, lhe valera o apelido: Saca-Boi. — Então o velho é ruim, é? Quando ele nos conhecer, vai saber o que é ruindade de verdade, parceiro!

E os dois cafunjes gargalharam na noite aziaga como hienas prestes a avançar sobre um animal moribundo.

João Gadanho tossiu, cuspiu para o lado, e falou:

— Agora, vamos! E não esquece, Saca-Boi: se o velho empombar, a gente o despacha pro inferno mais cedo do que ele esperava...

O portão de ferro enferrujado foi empurrado com vagar, mas mesmo assim a dobradiça guinchou alto como um demônio ferido.

Os dois ladrões caminharam pela pequena aléia macadamizada, em cujas margens pequenos ciprestes tornavam o lugar ainda mais estranho e lúgubre. Flores exóticas e multicores ornavam o pequeno jardim à frente da casa, e seus perfumes eram tão exóticos e inebriantes que chegavam a ser quase narcóticos. Em alguns lugares, viam-se várias estátuas, estátuas estranhas aparentemente talhadas em alguma espécie de pedra negra representando homens, crianças e mulheres de todas as idades e de todas as épocas em poses grotescas, mórbidas e macabras. Eram esculturas bem grotescas, aquelas. No semblante das ditas estátuas via-se o medo e o desespero desenhados com maestria doentia. Aquelas obras de arte tinham um estilo realmente assustador, apavorante.

— Cada estátua esquisita...Olha só, Saca-Boi!.. São tão esquisitas, mas parecem terrivelmente reais! — disse João Gadanho, apontando com o queixo para uma delas, uma mulher com roupas muito antigas, em cujo rosto via-se uma verdadeira máscara de medo, agonia e dor.

— É...Quem será que esculpiu essas coisas horrorosas? O velho?

— Claro!...O velho louco, na certa? — arriscou Chico Saca-Boi, meio irônico.
— Pode ser mesmo. Ele deve ser um artista. Todo artista é meio louco. São uns esquisitos, esses sujeitos, os artistas!...O mundo não os entende, tampouco eles entendem o mundo...Tive um tio artista — pintor! — na minha família; morreu louco num hospício, o coitado...

Caminharam um pouco mais, até a soleira da porta.

— Agora passe o pé-de-cabra, Saca-Boi — pediu João Gadanho, murmurando.

— Toma aqui! — Chico Saca-Boi entregou a ferramenta que trazia oculta debaixo do velho e sujo sobretudo que ele roubara da casa de um leguleio que o livrara da cadeia, certa vez.

João Gadanho ficou surpreso ao constatar que a porta não precisaria ser arrombada. Simplesmente a porta não estava trancada...

— Ué?...Aberta? A droga da porta tá aberta, Saca-Boi...

— O velho já deve estar bem caduco mesmo...

— Bem, vamos entrar e apavorar, então. A droga do pé-de-cabra terá uma outra utilidade, se o velho reagir — e João Gadanho soltou uma risadinha malvada.

A casa estava às escuras. Provavelmente o ancião já estaria entregue ao sono, a dupla acreditava.

— Mas que porcaria! Isto aqui está escuro como um túmulo! Não consigo ver quase nada. Acende logo a maldita lanterna, Saca-Boi — disse João Gadanho, murmurando.

Chico Saca-Boi retirou do bolso do sobretudo uma pequena e velha lanterna, acendendo-a de imediato.

O foco de luz passeou pelos cantos da casa como um fantasma vadio. Tudo era examinado detalhadamente. Todas as coisas de real valor seriam levadas pelos dois gatunos.

— O cheiro de mofo desta casa é pior do que a fedentina de um cadáver podre, cara — comentou João Gadanho. — Será que o velho não abre as janelas nem de dia? Vive enfurnado aqui o tempo todo, neste fedor miserável? Além de louco é porcalhão?...

Eles começaram a vasculhar tudo. Constataram que no andar inferior não havia muita coisa a levar. Havia uma grande quantidade de quadros na parede, representando épocas passadas, mas isso decididamente não interessava aos dois. Somente levariam dinheiro vivo, pratarias e jóias. A arte não representava nada para o par de pífios gatunos: aproveitaram para riscar e quebrar algumas telas como verdadeiros vândalos.

Foram até a biblioteca da casa. Era grande, espaçosa, repleta de obras raríssimas. Nada encontraram que lhes chamasse atenção. Livros também decididamente não interessavam a tipos como Chico Saca-Boi e João Gadanho. No entanto, um grande volume sobre um atril de ébano despertou a curiosidade de João Gadanho.

— Dá uma olhada nesta droga aqui, Saca-Boi...

Era um livro enorme, de capa negra e dura, o título sobressaindo-se em letras góticas e douradas: LIVRO NEGRO DAS ARTES MÍSTICAS, AUTOR ANÔNIMO.

— Além de esculpir, o velho é chegado em magia negra e satanismo... — disse João Gadanho, apontando o livro com o queixo para Chico Saca-Boi.

João Gadanho folheou o livro, iluminando as páginas com a luz da lanterna. Estranhos símbolos ornavam capítulos inteiros dedicados às artes místicas. Foram tais gravuras que despertaram interesse naqueles dois, não os textos em si, já que não entendiam quase nada.

Eles pararam de olhar o livro quando ouviram passos. Passos lentos, trôpegos. Vinham do andar de cima.

Então o foco da lanterna foi dirigido ao cenho daquele ancião. Ele era um velho medonho, apoiado em uma bengala cujo castão lembrava um crânio humano. Os olhos do velho eram horrendos, sem brilho, pareciam os de um abutre morto ou de alguém com catarata em seus estágios mais avançados. Seu rosto horrivelmente encarquilhado, sua pele seca e lívida, tudo lhe dava a aparência de um verdadeiro morto-vivo. As escassas cãs rareavam, revoltas, cabeça acima, denotando sua idade avançada. Trajava uma espécie de roupão púrpura antigo.

— Vieram apreciar a minha arte, por acaso?... — falou o velho, rindo de um modo estranho.

João Gadanho, com o pé-de-cabra em riste e os dentes rilhados numa expressão de raiva, falou ameaçadoramente, a medida em que subia a escada, seguido por Chico Saca-Boi, que segurava a lanterna, focando a luz no rosto sinistro do ancião:

— Velho, ouça bem: queremos toda a grana e tudo o mais que você tiver de valor. E não tente reagir, senão vamos ter que acabar com você!...

— O que eu tenho de real valor, vocês jamais conseguirão tirar-me, seus velhacos! — disse o velho, fazendo um esgar de escárnio, amparando-se na balaustrada. Com sua voz gutural e fraca, ele tornava-se ainda mais assustador.

— E o que você tem de real valor que a gente não possa tirar, velho? — quis saber Saca-Boi, curioso.

— A potência eletromagnética de meu espírito, meu caro!...

— Vá pro inferno, velho caduco! — urrou João Gadanho, perdendo a paciência e desferindo um golpe na testa do velho com o pé-de-cabra. O ancião caiu no escuro, rolando escada abaixo como um porco velho abatido.

Iluminando com a lanterna, Chico Saca-Boi falou:

— Olha só, o bicho velho se contorce de dor lá embaixo, no chão...

— Esse não enche mais o saco.

E eles seguiram em frente, resolutos.

O velho, caído ao chão e soerguendo com dificuldade a cabeça, olhou-os de soslaio e riu debochado, enquanto o sangue escorria denso por seu rosto. Por um instante pareceu murmurar numa língua estranha. Não pareciam simples frases, mas talvez algum tipo de conjuração estranha ou algo parecido...

João Gadanho e Chico Saca-Boi seguiram por um corredor às escuras. E foram dar no ateliê onde o ancião fazia sua arte estatuária.

Ali, uma imensa clarabóia deixava ver a grande lua cheia no céu estrelado da meia-noite; o luar iluminava estranhamente o sótão que servia de estúdio.

Os dois meliantes não entendiam muito de arte, mas estranharam o fato de não haver ferramentas usadas por escultores, como martelo e cinzel, por exemplo.

Havia uma enorme quantidade daquelas grotescas e bizarras estátuas espalhadas por aqui e ali, algumas cobertas por grandes lençóis brancos empoeirados.

Havia também o estranho teremim, colocado sobre um pequeno pedestal que mais parecia um pequeno altar.

No centro do recinto, sete globos de cristal vermelho brilhavam sobre um pedestal de aço reluzente, no qual se enroscavam sete serpentes esculpidas em bronze. João Gadanho especulou se era obra do velhote também.

Nisso, um rastejar sinistro se fez ouvir.

Os dois ladrões esbugalharam os olhos. Viraram-se e puderam ver no umbral da porta, o terrível ancião. Ele se arrastara até ali, e agora os fitava com o seu horrível olhar de sarcasmo, loucura e maldade. O rosto ensangüentado do velho o tornava ainda mais assustador e diabólico.

— Você de novo, seu traste velho do inferno! — rosnou João Gadanho, os dentes cariados rilhados numa expressão clara de raiva. — Pensei que tivesse dado cabo em você!
Com extrema dificuldade, e com um filete de sangue escorrendo pelo rosto, o velho ergueu-se, amparando-se em sua bengala e encostando o ombro no umbral da porta. Fuzilou os meliantes com seu olhar macabro e místico, depois falou:

— Vasos ruins não quebram, diz o ditado popular. É espantoso a capacidade do povo de proferir axiomas. Bem... Seria preciso muito mais que uma simples agressão física para me matar, seus inúteis. Além do mais, fiquem certo de que não temo a morte como a maioria dos boçais da humanidade. A morte é a chave que abre o portal místico que precisa ser atravessado para um novo ciclo nas eternas rondas evolucionantes da consciência eterna!... A carne é apenas o recipiendário efêmero do espírito imortal. Procurem entender, mesmo diante da precariedade de seus intelectos, seus malditos imbecis...

— Cala a boca, velho desgraçado! Você fala demais! — berrou Chico Saca-Boi, em fúria; na verdade, ele estava espumando de raiva: um filete tênue de baba descia pela comissura da boca, a veia do pescoço latejando de cólera.

— É isso aí! Fica caladinho, senão eu pego esse pé-de-cabra e acabo com a tua raça de uma vez por todas! Ouviu, seu velho desgraçado? OUVIU?...

— Pobres ineptos!... Foi muita estupidez vocês terem penetrado em meus domínios e ainda por cima ameaçar-me assim... stultorum infinitus est numerus!— falou o velho, rangendo estranhamente os dentes. — Se vocês ao menos pudessem pressentir o destino negro que os aguardam, ficariam mais dóceis, clamariam por misericórdia, como vermes imprestáveis que são.

E então o velho olhou para o céu noturno. Bem acima deles, visto através do vidro empoeirado da clarabóia, a lua cheia brilhava intensamente, agora aziaga, sinistra, mística, e, ao redor dela, estrelas cintilavam como olhos de aranhas na escuridão de uma tumba cósmica.

O velho estranho e ruim deu alguns passos trôpegos, adentrando seu lugar de criação. Depois ergueu os braços, sem baixar os olhos do firmamento. Com um tom de voz ainda mais solene e lúgubre, ele disse:

— Aproxima-se a hora, seus tolos! Tudo corre como o previsto. É sempre assim. Agora as estrelas além da loucura já estão posicionadas adequadamente, e os astros funestos contribuem novamente para o ritual mágico-artístico! Exatamente ao badalar da meia-noite, quando a lua estiver no píncaro do céu negro, sob o sétimo signo místico que a governa, e os espíritos serviçais dos quatro elementos estiverem no auge de suas cóleras, as forças incógnitas imanentes às trevas alcançarão o seu auge outra vez!... Sim, para se invocar certas forças espirituais eletromagnéticas, deve-se conhecer os algarismos matemáticos, realizar cálculos mágicos, e foi isso que eu fiz...

— Ih, Gadanho! — riu Chico Saca-Boi, debochado. — O velho filho da mãe tá gagá, mesmo! Não fala coisa com coisa...

— Acho que depois que eu lhe dei uma cacetada com o pé-de-cabra ele pirou de vez... — disse João Gadanho, sardônico. — Talvez uma outra pancada o cure.

— Esperem, lapantanas! — falou o velho, sem levantar a cabeça, sem tirar os olhos do céu escuro visto através da clarabóia. — Preparem seus espíritos, preparem suas carnes! Aproxima-se o zênite místico! É chegada a hora do ritual de sacrifício para a realização de mais uma obra de arte daquilo que os tolos chamam de sobrenatural!... Caput mortum, imperet tibi dominus per vivum et devotum serpentem!... Cherub, imperet tibi dominus per Adam Jot-Chavah! Aquila errans, imperet tibi dominus per alas tauri!... Serpens, imperet tibi dominus Tetragrammaton, per angelum et leonem!...

Com dificuldade extrema, ele se aproximou do teremim e começou a tocá-lo.

— Ouçam, agora... o soberbo recital do inferno! — berrava o velho, em júbilo sarcástico, tocando o teremim. — A estupenda música das esferas do morte!...

E o velho tocava freneticamente o teremim, movimentando suas mãos, ora aproximando-as, ora afastando-as do estranho e mágico instrumento musical eletromagnético. Parecia que o velho fazia um manossolfa para uma orquestra de espectros e demônios invisíveis. O som obtido era estranho e assustador. No silêncio sepulcral da noite maldita, soava quase como o gemido de uma alma torturada nas antecâmaras do inferno.

— Pára com essa droga aí, seu velho miserável! — urrou João Gadanho. — Esse som tá me deixando louco!

— Que porcaria de instrumento esquisito é esse? — também gritou Chico Saca-Boi, tapando os ouvidos com as mãos em concha. — Pára com essa droga, velho!

O estranho som do teremim agora parecia perfurar os tímpanos daqueles dois safardanas como um invisível punhal ardente. Era um som insuportável. Suas cabeças pareciam querer explodir como balões frágeis tamanha era a dor lancinante que sentiam.

Além da dor insuportável que os fazia se curvarem, uma estranha e elétrica dormência tomava conta de seus corpos.

— Gadanho, não consigo mexer minhas pernas...Parece que elas estão sendo atravessadas por uma eletricidade do inferno! — disse Chico Saca-Boi.

— As minhas també


:: LAZER A LASER 11/26/2008 02:49:22 PM (o) Comentários: ::
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::.. Segunda-feira, Novembro 10, 2008 ..::

My heart to you, Kitten!





:: LAZER A LASER 11/10/2008 02:05:09 AM (o) Comentários: ::
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::.. Domingo, Outubro 05, 2008 ..::

Resoluções de Setembro




Cheguei a conclusão que não gosto de bandas em que os integrantes usem boné. Nos shows ou no dia-a-dia como acessório, o uso do boné reduz a taxa de bom gosto musical.


:: LAZER A LASER 10/5/2008 01:40:09 PM (o) Comentários: ::
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